Crônica de Santa Cruz 0 x 2 Inter: o síndico

GRÊMIO


Foto: SC Internacional/Divulgação

Voltei do litoral após o final de semana na casa de meu amigo Jorge. Faziam dias de extremo calor no Rio Grande do Sul e, não tenha dúvida, estar na praia, para quem podia, parecia o mais razoável. Contudo, estava marcada uma reunião de condomínio e era preciso ir. Chego em casa, encontro Lygia, que havia voltado do interior.

Tínhamos problema na rede elétrica, então não era possível acionar o ar condicionado. Mesmo transpirando, senti a presença de Lygia como uma brisa fresca. E logo me encantei com suas palavras, ainda que dissessem respeito à temperatura.

– Querido, este é o dia mais quente desde que começou o verão. O sopro do vento é ardente como se a casa estivesse no meio de um braseiro.

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Eu apenas assenti e lhe alcancei um copo d’água. Como eram ternas as palavras de Lygia. Sentia como se o amor fosse um pássaro a construir em mim o seu ninho. E que por isso eu o amava e o guardava no peito. Mas havia a reunião do condomínio e era preciso acalmar o coração e ressuscitar meus conhecimentos de política, que de tanto eu ignorar, tinham teias.

– Preparado para o velho Guilherme? – perguntou Lygia. O “velho Guilherme” era o síndico.
– Preparado – respondi, respirando fundo.

A situação era complicada. Havia um tempo que tudo era motivo para multa e advertência, ao ponto de ter-se criado uma oposição muito forte entre os moradores no prédio. Multou um condômino que tinha uma risada muito estridente, advertiu o pessoal que jogava canastra no salão e proibiu uma jovem que dançava no quarto porque fazia barulho no chão.

Chegamos no já citado salão, que estava com um certo climão. Nesse meio tempo havia voltado a luz no prédio, mas diante das outras insatisfações, o tema acabaria não sendo assunto. Todos sentaram, até um pouco entristecidos, e começaram a ouvir Guilherme.

– Eu não falo essas coisas por mal. Eu quero uma grande conciliação, e que sejamos o que se espera de um ser humano. Não entendo essa obsessão por diversão de vocês. Eu olho da janela, em silêncio, e acho tudo tão vazio.

As pessoas estavam cabisbaixas. Foi quando entrou no salão o Joaquim, nosso vizinho jornalista, e colorado. Senti sua contrariedade, porque tinha jogo do Inter contra o Santa Cruz, nos Plátanos. O Iarley ia estrear como treinador do time do interior do Estado e o Inter jogaria com praticamente todos os titulares.

O olhar de Joaquim para Guilherme era de quem, embora respeitasse, já ouvia discordando e calando a impaciência. Guilherme percebia e sentia as retinas do conviva como uma agulha no nada de seu ser. Até que a jovem que dançava se manifestou:

– Seu Guilherme, acho que podemos negociar.
– Sinto que se eu cedesse estaria me contradizendo – disse o síndico.

Foi quando eu me meti. E nessas horas o tom da minha voz lembra o do Cid Moreira e meus trejeitos o daquele personagem da Escolinha do Professor Raimundo, o Rolando Lero. Nessa onda, falei:

– Meu irmão, quando tens uma virtude, não a tens em comum com ninguém. Uma virtude terrena é a que eu amo: pouca inteligência se tem ali, e o que menos se tem é a razão de todos.

Se antes todos estavam cabisbaixos, agora ficaram um pouco estupefatos. O morador da risada estridente ensaiou uma gargalhada mas tapou a boca. Respirou e perguntou:

– Tá, eaí? O que isso quer dizer?
– Cada um tem um jeito e esse jeito é o que as pessoas têm de melhor. A jovem que dança tem razão, precisamos negociar – expliquei, já com a voz mais calma. Os olhos de Lygia riam profundamente.

A reunião seguiu e um novo acordo de superação dos ressentimentos foi lavrado em ata. Lygia e eu fomos até Joaquim. Trocamos impressões e ele nos convidou para ir até seu apartamento ver o pós-jogo do Inter e conversar mais um pouco.

Com os titulares, o Inter venceu com facilidade por 2 a 0. Gols ainda no primeiro tempo. Primeiro Bruno Henrique depois Enner Valencia, o primeiro dele naquele Gauchão. A segunda etapa transcorreu quase de forma protocolar. O Inter ia a 13 pontos e era vice-líder, atrás do Grêmio.

O próximo jogo seria contra o São José, fora de casa, no domingo (11), às 19h (eu sei porque eu anotei depois para contar a história). Fiz uma última pergunta ao Joaquim.

– E o Iarley?
– Vai ser o mote de todo o noticiário amanhã. Mas nesse caso o clichê é merecido – respondeu, e riu com o canto da boca.

Visto o resultado, nos despedimos. Lygia e eu voltamos para casa. Na sala, ela se aproximou de mim e disse:

– Gostei de te ver na reunião. Voz forte, lembrei de nossa juventude, teu corpo atlético, imponente, calmo mas dono da situação.

Então ela se afastou, foi até a TV e colocou um bolero no YouTube. Terminamos a noite dançando, com passos macios, sem ruídos.



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