O que é um homem II | André Bloc

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Bandeira LGBTQIA+ no gramado da Arena do Grêmio (Foto: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA)
Foto: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
Bandeira LGBTQIA+ no gramado da Arena do Grêmio

Homem não chora. Eram meus anos formativos. Adolescência influenciando sem pedir licença. Foi quando um amigo notou que eu era fácil para o choro. Talvez minha única precocidade fosse a capacidade de me movimentar preventivamente de forma a evitar o bullying. Decidi que não chorava mais. Matei a criança em mim. Em 2024, ainda não chorei.

Homem resolve os problemas só. Por mais “extravagante” que eu seja, o viés tímido quase sempre me venceu. Lembro de querer faltar à escola por descobrir que teria de entrar por outro portão. De pedir para minha mãe confirmar com pais de colegas sobre qualquer atividade extra. Lembro de, já adulto, pedir para minha mãe marcar consultas para mim. Lembro de não conseguir ir sozinho na padaria pedir um pão.

Homem precisa ser o provedor. Meus irmãos têm famílias de propaganda de margarina. Esposas sorridentes, filhos encantadores. Eu tenho o destino do filho gay caçula, que é cuidar da própria mãe, que abriu mão de tudo pelos três filhos. Nos núcleos heteronormativos fraternos, uma das minhas cunhadas é a mulher das decisões. A outra, é a referência familiar de sucesso profissional e financeiro. Meus irmãos? Muito bem, obrigado.

Meu menino vai ser craque. Existe um ideal de masculinidade entranhado no futebol. Vi, neste fim de semana, um vídeo de um desses mini-Messis, enfileirando rivais com uma habilidade maior que a própria estatura. O comentário é: “O sonho de qualquer pai”. A resposta que nunca terei, meu ovo x galinha, é se eu nasci para gostar de esporte ou me moldei a jogar bola porque era isso que a sociedade esperava de mim. Irrevogavelmente, um “viado que gosta de futebol”.

Homem não, ele é gay. LGBTs são sujeitos desviantes. Mas um homem gay é um homem, seja cis ou trans. Orientação sexual não é escolha e nada diz sobre “masculinidade” ou mesmo “virilidade”.

Quase 80% dos suicídios no Brasil são autoinflingidos por homens. Machismo não afeta só as mulheres. Homens também são vítimas de patamares inalcançáveis, de pressões seculares, de complexos nunca tratados — “homem não faz terapia” (fiz por mais de 10 anos). Homem que é homem não pode sentir. Homem que é homem não pode desabafar. Homem que é homem dá conta de tudo. Tem de ser “macho”. Tem de liderar. Vencer, à revelia dos outros.

É a isto que me recuso a me curvar. Lugar de mulher é onde ela quiser. Lugar de homem também. Sejamos bichas, se bichas formos. Eu só quero o que é meu.



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